ISTO É – Pai e mãe devem ser presença constante na vida do filho


ISTO É – Pai e mãe devem ser presença constante na vida do filho

“Pai e mãe devem ser presença constante na vida do filho”

Considerada a maior especialista do País em educação infantil e de jovens, a psicóloga diz que, quando acontece a separação, a decisão de não compartilhar a guarda da criança é uma forma de punição

por Paula Rocha

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PARA SEMPRE
“Existe ex-marido e ex-mulher, mas não ex-filho”, diz

Com mais de 30 anos de experiência em clínica, supervisão e docência, a psicóloga paulistana Rosely Sayão é considerada a maior especialista do País em educação de crianças e adolescentes.
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“Muitas mulheres disputam a guarda dos filhos como se fossem
um bem. Os maiores prejudicados com isso são os próprios filhos”

Formada em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas (SP), ela se tornou referência em relações familiares ao apresentar o programa “Seus Filhos”, na rádio BandNews FM, e por assinar há mais de duas décadas uma coluna no jornal “Folha de S.Paulo”, além de ter lançado os livros “Família: Modos de Usar” (Editora Papirus, 2006), “Em Defesa da Escola” (Papirus, 2004) e “Como Educar meu Filho?” (Publifolha, 2003). Mãe da educadora Camila, 39 anos, e do instrutor de ioga Fábio, 35, Rosely, nesta conversa com a ISTOÉ, discorre sobre o Projeto de Lei 117/13, aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que tornará a guarda compartilhada regra, mesmo em caso de disputa ou desacordo entre pais divorciados. O projeto ainda será votado pelo plenário.
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“Ainda vai levar um tempo até que a sociedade entenda e internalize
a ideia de que o homem tem plena condição de dar conta da criança sozinho”

ISTOÉ – Qual é o principal avanço do projeto de lei que torna a guarda compartilhada regra nos casos em que não há consenso entre os pais?

ROSELY SAYÃO –

 O principal avanço é tentar garantir por lei o direito da criança de conviver igualmente tanto com o pai quanto com a mãe. É uma lei de proteção à criança. Quando um bebê nasce, a maioria tem pai e mãe conhecidos e, em geral, unidos. Esse novo projeto tenta garantir que os filhos continuem a viver nessa configuração, independentemente da separação dos pais. No entanto, o fato de a gente ter essa lei não garante uma mudança de conceito e de mentalidade. Mesmo que formalmente a guarda compartilhada seja regra, o pai ou a mãe podem inviabilizar isso. Então temos que trabalhar também para mudar a mentalidade a respeito desse assunto.

ISTOÉ – Quais são as maiores vantagens para os filhos desse tipo de guarda?

ROSELY SAYÃO –

 Quando um casal se une e decide ter filhos, ambos deveriam se lembrar que existe ex-marido e ex-mulher, mas não ex-filho. É preciso que a criança tenha essa garantia de crescer e se desenvolver na companhia dos dois pais. Cada pessoa tem um estilo de ver a vida, um estilo de amar, de dar bronca, de ter paciência ou impaciência. É importante que a criança conviva com esses dois estilos diferentes, do pai e da mãe, porque dessa forma ela aprende a se relacionar com pessoas distintas e a reconhecer a diferença. Essa é a maior vantagem da guarda compartilhada.

ISTOÉ – Na guarda compartilhada, existe uma forma ideal de dividir o convívio e os cuidados com os filhos? Como pai e mãe separados podem chegar a um equilíbrio?

ROSELY SAYÃO –

 Não há uma fórmula ideal. A guarda compartilhada não se mede pelo tempo que o pai e a mãe passam com a criança, mas pela dedicação e pela disponibilidade de cada um. Os casais que ainda estão juntos compartilham naturalmente a responsabilidade pelos filhos, seja na hora de buscar na escola, seja na hora de cuidar, ou de sair de casa. A guarda compartilhada é uma possibilidade e uma tentativa de resguardar essa alternância da criança com o pai e a mãe. Mas nós não precisamos entender essa guarda de um modo quadrado, como se fosse obrigatório a criança ter duas casas, ficar tais dias com um e tais dias com o outro. Se o ex-casal consegue se acertar e dialogar, isso é o de menos. E cada família pode encontrar suas maneiras de praticar isso.

ISTOÉ – E como o ex-casal deve estipular regras? É ideal que a criança tenha as mesmas normas na casa do pai e da mãe?

ROSELY SAYÃO –

 O ideal para a criança é que seus pais conversem, se entendam e negociem algumas posições fundamentais, mas só as fundamentais. Por exemplo, quando o filho chegar à adolescência, ele poderá ir para a balada ou não? É fundamental que pai e mãe concordem nesse ponto. Agora, se a criança vai tomar banho todo dia ou não, a que horas ela vai dormir, se vai almoçar em frente à televisão ou não, tudo isso não precisa de acordo. É bom para a criança entender que em cada contexto há uma série de regras distintas a seguir. Não é necessário criar uma situação artificial em que as regras são as mesmas nos dois ambientes. Pai e mãe não precisam ter um mesmo discurso. As crianças são mais capazes do que nós, adultos, de viver na diversidade. Os pais também não devem julgar as regras um do outro. Eu ouço muito isso hoje. As mães me dizem: “Quando meu filho volta da casa do pai, volta achando que pode tudo”. Mas é só restabelecer e reforçar as regras da casa que a criança pode até reclamar, mas entra no jogo.

ISTOÉ – O que a sra. acha que deveria ser feito quando um dos ex-cônjuges se recusa a praticar a guarda compartilhada?

ROSELY SAYÃO –

  Quando ocorre uma separação, em geral há uma briga por bens, e hoje os filhos são considerados um bem. Na nossa sociedade do consumo, os filhos se tornaram uma posse. E a mulher, em geral, ainda se sente prejudicada quando ocorre uma separação, mesmo quando a iniciativa parte dela. É interessante isso. Voltando na história, a função do homem era ser o provedor, enquanto a mulher administrava o lar e a família. Quando um casamento chegava ao fim, a mulher saía prejudicada mesmo, pois ela passava a vida sem aprender um ofício e, de repente, na meia-idade ou na velhice, se via sozinha dependendo da boa vontade e de uma mesada do ex-marido. Os tempos mudaram, hoje a mulher não depende mais financeiramente do marido, mas essa sensação ainda persiste. Então, muitas mulheres disputam a guarda dos filhos como se fossem um bem. E elas não se dão conta de que os maiores prejudicados com isso são os próprios filhos. Elas pensam “o filho é meu”. Mas acredito que, em um conflito, sempre é possível o diálogo. É preciso ouvir o outro e ceder, em prol do bem das crianças. Os filhos sofrem muito quando o pai e a mãe brigam. Os pais nesse momento têm de lembrar que serão pais até que a morte os separe. Precisam engolir mágoas e conter raivas.

ISTOÉ – Desde 2008, uma alteração no código civil contempla a guarda compartilhada. No entanto, a maioria do Judiciário brasileiro continua estabelecendo guardas unilaterais, geralmente para a mãe. Por que isso acontece?

ROSELY SAYÃO –

 É uma questão cultural e histórica. Antigamente, era função da mãe ser responsável pelo cuidado e pela educação dos filhos. Hoje, as mães trabalham tanto quanto os pais, e o cuidado das crianças é um dever de ambos. Mas ainda vai levar um tempo até que a sociedade entenda e internalize a ideia de que o homem também tem plena condição de realizar essa função. Muitos homens já dão conta das crianças sozinhos.

ISTOÉ – Ainda existe muito preconceito em relação aos homens que executam funções consideradas maternas?

ROSELY SAYÃO –

 Sim, existe preconceito por parte de todos na sociedade. Não apenas da Justiça, mas também de muitas mães e, inclusive, dos próprios pais. Nossa maior dificuldade hoje é superar essa posse que a mulher tem da maternidade, como se ela fosse quase 100% responsável pelo filho. A mãe muitas vezes acha que só ela sabe fazer as coisas. E isso é reflexo da questão histórica. Era assim mesmo. Tanto que, até hoje, quando casais compartilham os cuidados com a casa e os filhos, a mulher diz “meu marido ajuda”. Se ele ajuda, é porque a responsabilidade é dela, e o marido é apenas um colaborador. Mas essa visão está errada. Nós precisamos avançar muito nesse sentido. A mãe não é a detentora única da habilidade de cuidar e de educar os filhos. Não é só do jeito dela que a criança fica bem. O jeito do pai também pode ser bom. Mas a mãe tem essa atitude “eu sei, eu cuido, eu faço, deixa comigo”. Muitas crianças perdem o convívio com o pai porque a mãe prefere dar conta de tudo sozinha.

ISTOÉ – Quais são os maiores prejuízos que uma criança em guarda unilateral pode sofrer?

ROSELY SAYÃO –

 Acredito que o maior prejuízo é considerar o pai ou a mãe uma visita. Me espanta muito esse termo “visita”, usado inclusive legalmente. Quando a guarda das crianças é da mãe, a Justiça determina dia de visita para o pai. Mas pai não é visita. Como é que um pai pode ser denominado visitante do filho? Isso me deixa absolutamente espantada. Visita implica alguém fora do convívio familiar. E o pai e a mãe devem ser uma presença constante na vida do filho, mesmo na ausência física. Outro prejuízo é a criança passar boa parte de sua vida submetida a só um tipo de bronca, um tipo de paciência, um tipo de amor, um tipo de contato físico. Isso sufoca a criança. Quando a criança tem a possibilidade de ter dois estilos de pessoa responsáveis por ela, às vezes até mais, se você incluir os avós, ela conhece outros tipos de cuidado e afeto. É muito mais rico.

ISTOÉ – É comum pais ou mães usarem a guarda unilateral como uma forma de punir o ex-cônjuge?

ROSELY SAYÃO –

 Sim. Quando um homem e uma mulher se unem, cada um deles tem muitas expectativas em relação ao outro e a essa união. Em geral, essas expectativas são mais infantis do que adultas. E, ao contrário dos contos de fadas, dificilmente um casal é feliz para sempre. Quando acontece a separação, a decisão de não compartilhar a guarda de um filho é uma punição. Não pelo comportamento do outro, mas sim pela frustração de aquele cônjuge não ser como você desejava que ele ou ela tivesse sido. Mas a mulher nunca vai admitir: “Estou me vingando dele porque ele não foi meu príncipe”. É mais fácil criar justificativas, do tipo “ele não tem condição de cuidar do filho, ele não tem tempo para ir buscar na escola, ele não cuida bem”. Veja que são criadas questões objetivas, mas por trás há a mágoa. A separação no Brasil ainda não é vista com naturalidade no âmbito pessoal. Fica um peso, uma culpa. Daí a vontade de punir o outro.

ISTOÉ –  Distância física entre as moradias dos pais ou a idade da criança podem ser impedimentos para a guarda compartilhada?

ROSELY SAYÃO –

 Não. Vamos imaginar um casal não separado, em que o marido mora durante a semana em outra cidade ou Estado, mas mantém um cotidiano de relacionamento com os filhos. Todos os dias, ou dia sim, dia não, eles se falam pelo computador, mandam mensagem. Se funciona para os casais unidos, por que não funcionaria para os separados? É possível que a guarda compartilhada seja efetivada mesmo a distância. É exigido, claro, ainda mais disponibilidade desse ex-casal para conversar civilizadamente. Se houver diálogo entre os dois, não importa se a criança mora numa cidade e o pai ou a mãe na outra. A gente tem uma ideia de que a guarda compartilhada são duas casas, meio a meio, e que só pode funcionar com a presença física. Mas isso não é verdade. É preciso considerar a outra figura, materna ou paterna, mesmo na ausência física. E a idade da criança não faz diferença nenhuma. A gente não manda nossos filhos para a creche desde muito pequenos? Por que então não poderíamos deixar um filho pequeno aos cuidados do outro cônjuge?

ISTOÉ – Existe alguma situação em que a guarda compartilhada não seja recomendada?

ROSELY SAYÃO –

 Apenas quando um dos pais tiver uma dependência química de qualquer tipo, ou em casos de abandono, descaso e maus-tratos. Fora isso, a guarda compartilhada é sempre a melhor forma de dividir os cuidados com os filhos, seja o casal separado ou não.

FONTE: http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/389172_PAI+E+MAE+DEVEM+SER+PRESENCA+CONSTANTE+NA+VIDA+DO+FILHO+.htm?addCommentary=success&pathImagens&path&actualArea=internalPage

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